Carta de desachamento

Os últimos anos que precederam esse 515º aniversário da Carta de Achamento foram de celebrados re-achamentos. Re-achamento, pelo governo e parte da sociedade, do Brasil Grande, simbolizado pela usina de Belo Monte – projeto, diga-se de passagem, dos militares da última ditadura, que não conseguiram levá-lo a cabo –, que destruiu e está destruindo incontáveis modos de vida humanos e não-humanos. Re-achamento também do “Gigante adormecido”, que parece ter acordado apenas para se revelar um monstro que bate continências aos homens fardados. Re-achamento, em suma, da perversa noção de Pátria, ainda mais perversa que aquela de Nação, e que pressupõe uma origem e um destino de grandeza, uma linha de continuidade – que se configura também como de destruição. Tudo isso em uma época em que está cada vez mais claro que esse caminho para a “maioridade” – o desenvolvimentismo, corolário do descobrimento (des-cobrir é des-envolver) – leva a um beco sem saída, ou, em bom português, a catástrofe ambiental antropicamente produzida. Os vastos sertões e suas gentes – espaço do entrelaçamento, da ausência de fronteiras: heterotopicidade – anunciados por Caminha foram ou continuam sendo des-bravados, topicizados, medidos e enquadrados – mesmo que ao custo de se converterem em desertos. A maioridade do homem, processo que se inicia em seguida ao achamento, culmina com a emergência de uma nova época geológica: o Antropoceno. Ungida por CO2, a Terra é então batizada com o nome daqueles que pretenderam se liberar das garras do mundo (ou seja, literalmente emancipar-se) dispensando a elas o mesmo tratamento que outrora dispensaram àqueles que, por não reconhecerem suas ideias de propriedade, tomavam por ladrões (quando eram os juízes mesmos os usurpadores) – cortando-as fora. E se aqueles que se opõem a essa via de mão única do progresso são tachados de Minorias com Projetos Ideológicos Irreais, talvez essa irrealidade – a demanda do impossível, daquilo que é inconcebível para certa visão da história e do mundo – seja justamente um dos possíveis roteiros de que falava o Manifesto Antropófago: 515 anos depois de nosso “achamento”, talvez seja hora de nos perdermos, des-acharmos, des-realizarmos e nos re-embravarmos em novos e antigos sertões. Pararmos por um instante de abrir clareiras (esclarecer) para embrenharmo-nos; pararmos de mirar o alto e começarmos a descer. Em suma, inventarmos novas possibilidades, a partir de uma história a contrapelo, vermos que não estamos seguindo uma linha necessária, mas apenas dando sequência a um inaugural “Erro de português”: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”. Talvez, então, seja a hora oportuna de inverter o erro, realizar a história interrompida, que não foi – dar poder à imaginação para que a imaginação possa desafiar o poder: despir o português, a máquina colonial, que é uma máquina do tempo, uma concepção evolutiva do tempo, da história, do pensamento. Isto implica construir uma Errática, uma “ciência do vestígio errático”, que é também uma antropologia especular e especulativa: imaginar, mas também ver como diante dos outros nossa imagem retorna deformada – diferente, diferida, como num espelho animado. Ou seja, especular sobre as imagens reais e possíveis da nossa espécie e sua relação com as outras espécies (imagens), sobre o que é uma espécie e como ela se constitui enquanto variação (refração) contínua do conjunto de espécies existentes e possíveis. Uma espécie de renovada e errante patafísica, a “ciência das soluções imaginárias, que simbolicamente atribui as propriedades dos objetos, descritos por sua virtualidade, aos seus traços”, que nos coloque em contato com outras humanidades – reais ou irreais – justamente para desrealizar nossa concepção do Homem (moderno, demasiado moderno), nossa imagem do homem, nossa species – para podermos pensar e experimentar outras. Trata-se, para começar, de imaginar com os outros, partindo de um estado de espírito incerto, para não dizer de uma ciência das incertezas, aberto a um encontro que não seja de conquista e submissão, que, em vez de reduzir e explicar o outro, o ouça, atento as suas possibilidades e, portanto, às nossas: uma antropologia que se inicie nas especulações das diferentes coletividades e agenciamentos para fazer surgir em nossas especulações a semente da multiplicidade ontológica. Ou seja, trata-se de reconhecer que a razão de Estado é também um estado da razão, as mais das vezes monárquico e totalizante, sempre pronto para a interdição do outro sob o signo do Um, germe do poder no poder da razão. Pois o direito de autodeterminação ontológica está diretamente relacionado com os modos de vida e não com nossas razões primeiras sobre as razões do outro. Anti-solipsismo: não há diálogo para valer sem a premissa da incompletude, que não questione as fronteiras do pensar e do viver, os muros, as incomensurabilidades, as histórias familiares, que não seja um pensamento na fronteira. Pois é sempre a “mesma fronteira” que separa humanidade de animalidade e homens de outros homens, e os homens de seus duplos: o animal é gêmeo do escravo, e o especismo e o racismo, os dois aspectos indissociáveis do “mito da dignidade exclusiva da natureza humana”, espectros invocados pelo “ciclo maldito” que esse mito instaura e que pretende paradoxalmente excomungar todos os outros espectros cumprindo a era do triunfo (do) Absoluto, o Antropoceno, na qual a “dignidade” alastra seu cheiro de morte. Talvez todas as ciências do homem, aquilo que chamamos de humanidades, sejam ou devam ser também ciências do inter-esse, ciências interessadas, interespecíficas, do contato, cujos co-sujeitos não seriam só humanidades, mas espécies, monstros. Ciências da tradução recíproca entre virtualidades e atualidades. Ciências não mais ocultas, ciências de faces monstruosas. “Ciências inumanas”. Ciências-ficção. Ciências-poiesis.

Alexandre Nodari (Departamento de Literatura e Linguística/UFPR)
Flávia Letícia Biff Cera (Cultura e Barbárie)
Guilherme Gontijo Flores (Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas/UFPR)
Juliana Fausto (Programa de Pós-Graduação em Filosofia/PUC-Rio)
Marco Antonio Valentim (Departamento de Filosofia/UFPR)
Miguel Carid (Departamento de Antropologia/UFPR)
Vinicius Honesko (Departamento de História/UFPR)

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